Tio me dá um real
Aquela cara suja, estampada em um cabeção sustentado pelo corpo magrinho, vestido por uma camisa três vezes maior que ele, chamou-me mais atenção do que nos outros em volta, maiores e menos sujo que ele.
Eu comia um beijú de banana com queijo na frente da faculdade, atrasado como sempre, era feriado dos comerciários e além do beijú só a banca de revista estava aberta.
Ele veio naquela:
- Tio me dá um real?!
- Porra, um real, colé pivete, um real pra que?
- Pra eu comprar um lanche.
- Escolhe um beijú ai que eu pago.
- Eu queria o dinheiro.
- Ah, se fuder pivete, cê quer é comprar um queijo né?
- Tsc! Fumo crack não tio.
A porra do beijú não tava tão bom, aliás ele era uma merda, comprei por falta de opção mesmo, e o refrigerante se fez necessário. Fui a banca de revistas e o sacaninha já tava lá, no corre dele.
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- Tio me dá um biscoito?!
- Niuma. Quanto é o biscoito tia?
- Um real!
- Não tio me dá este aqui de um e cinquenta.
- Porra, você é abusado demais, ainda quer o mais caro, na moral, vai se fuder, num vou dar mais porra nenhuma.
- Tá bom, tá bom, me dá o de um real mesmo que eu tou com fome.
- Cobrai tia o biscoito dele.
A tia me olha com aquela cara de que eu tou sendo feito de otário, mais eu penso: “foda-se, saiu uma grana hoje, vou ajudar este pivete”
O sacana pegou o biscoito, se afastou alguns metros de mim e riu ao mesmo tempo que levantava a camisa gigante e me mostrava mais dois pacotes de biscoito.
- Ah, filho da puta é niuma, o seu tá guardado.
- Hahahahahahahaha! Tá mesmo, aqui oh!
- A fome de hoje não é a fome de amanhã.
- E nem o otário de hoje vai ser o mesmo de amanhã.
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